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No ambiente técnico e, por vezes impessoal de um hospital, onde os sons são dominados por monitores e o ritmo é ditado por protocolos, a humanização do cuidado é o farol que guia uma recuperação verdadeiramente integral. Quando o paciente é uma mulher indígena, internada na clínica feminina do Hospital Regional Leopoldo Bevilacqua, esse cuidado precisa se expandir para além dos limites da biomedicina, abraçando a sua cultura, suas crenças e o seu universo simbólico. Permitir a visita do pajé da sua tribo não é uma mera concessão; é um ato profundo de assistência de enfermagem humanizada e um passo essencial para a cura.
Para muitas pacientes indígenas, a doença não é um fenômeno puramente biológico. Ela pode ser entendida como um desequilíbrio espiritual, um rompimento com a comunidade ou uma questão que transcende o físico. Enquanto a medicina ocidental ataca a patologia com medicamentos e procedimentos, o pajé trabalha para restaurar o equilíbrio perdido, com cantos, ervas, rezas e rituais que acalmam o espírito e reconectam a paciente à sua identidade e à sua rede de apoio ancestral.
Ao facilitar e incentivar essa visita, a equipe do HRLB, demonstra um respeito fundamental pela autonomia e dignidade daquela mulher. Ela deixa de ser apenas um "caso clínico" e é reconhecida em sua plenitude como uma integrante de um povo, com uma história e um sistema de saúde próprio. Esse gesto de respeito:
1. Reduz a ansiedade e o sofrimento psicológico: Estar internada em um ambiente desconhecido e hostil gera um profundo estresse. A presença do pajé, um símbolo de conforto, proteção e tradição, age como um bálsamo para a alma, proporcionando uma sensação de segurança e pertencimento que nenhum ansiolítico pode oferecer sozinho.
2. Fortalecer a adesão ao tratamento: Uma paciente que se sente respeitada, acolhida e em paz com suas crenças tem muito mais probabilidade de confiar na equipe multiprofissional e de seguir as orientações médicas. A cura espiritual e a cura clínica tornam-se parceiras, não rivais.
3. Promove um cuidado culturalmente competente: A equipe de enfermagem que abre espaço para essa prática está se educando e evoluindo. É um aprendizado sobre diversidade, sobre diferentes formas de enxergar o mundo e a saúde, enriquecendo a prática de todos os envolvidos.
4. Integra a rede de apoio: A visita do pajé é, muitas vezes, acompanhada por familiares. Isso reforça o vínculo da paciente com sua comunidade, que é um pilar fundamental para o seu bem-estar. A clínica feminina se transforma, momentaneamente, em uma extensão da aldeia, um território seguro onde a cultura não é suprimida, mas celebrada.
Isso envolve uma comunicação sensível com a família e o líder espiritual, a adaptação do espaço físico para que o ritual possa ser realizado com a devida privacidade e respeito, e a integração dessa prática ao plano de cuidados, assegurando que não haja conflitos com procedimentos médicos essenciais.
Portanto, ao abrir as portas da Clínica Feminina do Hospital Regional Leopoldo Bevilacqua para o pajé, não estamos abrindo mão da ciência. Pelo contrário, estamos elevando o nosso conceito de cuidado a um patamar superior. Estamos reconhecendo que a cura é um mosaico composto por tecnologia, compaixão e cultura. É na intersecção entre o conhecimento milenar dos povos originários e a técnica hospitalar moderna que se constrói uma saúde verdadeiramente integral, onde cada paciente pode se curar não apenas com remédios, mas também com a força do seu próprio espírito.
Saúde - 27/11/2025 | 12:00